Mensagens

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos). Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassossegos grandes. Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar. Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o. Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize ...

O Que Alguém Disse

"Refugia-te na arte", diz-me alguém "Eleva-te num voo espiritual, Esquece o teu amor, ri do teu mal, Olhando-te a ti própria com desdém. Só é grande e perfeito o que nos vem Do que em nós é divino e imortal! Cega de luz e tonta de ideal Busca em ti a verdade e em mais ninguém!" No poente doirado como a chama Estas palavras morrem... E n'aquele Que é triste, como eu, fico a pensar... O poente tem alma: sente e ama! E, porque o sol é cor dos olhos d'ale, Eu fico olhando o sol, a soluçar... Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

Pergunta-me

Pergunta-me se ainda és o meu fogo se acendes ainda o minuto de cinza se despertas a ave magoada que se queda na árvore do meu sangue Pergunta-me se o vento não traz nada se o vento tudo arrasta se na quietude do lago repousaram a fúria e o tropel de mil cavalos Pergunta-me se te voltei a encontrar de todas as vezes que me detive junto das pontes enevoadas e se eras tu quem eu via na infinita dispersão do meu ser se eras tu que reunias pedaços do meu poema reconstruindo a folha rasgada na minha mão descrente Qualquer coisa pergunta-me qualquer coisa uma tolice um mistério indecifrável simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'

Até amanhã

Sei agora como nasceu a alegria, como nasce o vento entre barcos de papel, como nasce a água ou o amor quando a juventude não é uma lágrima. É primeiro só um rumor de espuma à roda do corpo que desperta, sílaba espessa, beijo acumulado, amanhecer de pássaros no sangue. É subitamente um grito, um grito apertado nos dentes, galope de cavalos num horizonte onde o mar é diurno e sem palavras. Falei de tudo quanto amei. De coisas que te dou para que tu as ames comigo: a juventude, o vento e as areias. Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

Só nos pertence o gesto que fizemos

Só nos pertence o gesto que fizemos não o fazê-lo como, iludida, a divindade que em nós já trouxemos supõe errada (e não) por convencida. Porque o traçado nosso em breve cessa, para que outro o recomece e não progrida; que um gesto em ser gesto real se meça, não está em nós fazê-lo, mas na Vida. Assim o nada a sagra quando finda porque o que é, só é o não ainda. Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

Química

Sublimemos, amor. Assim as flores No jardim não morreram se o perfume No cristal da essência se defende. Passemos nós as provas, os ardores: Não caldeiam instintos sem o lume Nem o secreto aroma que rescende. José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

E por vezes

E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por vezes ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites não dos meses lá no fundo dos copos encontramos E por vezes sorrimos ou choramos E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se evolam tantos anos David Mourão-Ferreira, in 'Matura Idade'

Nasceu-te um filho

Nasceu-te um filho. Não conhecerás, jamais, a extrema solidão da vida. Se a não chegaste a conhecer, se a vida ta não mostrou - já não conhecerás a dor terrível de a saber escondida até no puro amor. E esquecerás, se alguma vez adivinhaste a paz traiçoeira de estar só, a pressentida, leve e distante imagem que ilumina uma paisagem mais distante ainda. Já nenhum astro te será fatal. E quando a Sorte julgue que domina, ou mesmo a Morte, se a alegria finda - ri-te de ambas, que um filho é imortal. Jorge de Sena, in 'Visão Perpétua'

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição, da prosa dos versos irregulares onde cantam os sentimentos irregulares. Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão, agora lês saramagos & coisas assim e eu já não fico a ouvir-te como antigamente olhando as tuas pernas que subiam lentamente até um sítio escuro dentro de mim. O café agora é um banco, tu professora do liceu; Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu. Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes, e não caminhos por andar como dantes. Manuel António Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'

Arrebatada

Eu não quero a ternura quero o fogo a chama da loucura desatada quero a febre dos sentidos e o desejo o tumulto da paixão arrebatada Eu não quero só o olhar quero o corpo abismo de navalha que nos mata quero o cume da avidez e do delírio sequiosa faminta apaixonada Eu não quero o deleite do amor quero tudo o que é voraz Eu quero a lava Maria Teresa Horta

Casa

Tentei fugir da mancha mais escura que existe no teu corpo, e desisti. Era pior que a morte o que antevi: era a dor de ficar sem sepultura. Bebi entre os teus flancos a loucura de não poder viver longe de ti: és a sombra da casa onde nasci, és a noite que à noite me procura. Só por dentro de ti há corredores e em quartos interiores o cheiro a fruta que veste de frescura a escuridão... Só por dentro de ti rebentam flores. Só por dentro de ti a noite escuta o que me sai, sem voz, do coração. David Mourão-Ferreira, in 'Infinito Pessoal'

No coração, talvez

No coração, talvez, ou diga antes: Uma ferida rasgada de navalha, Por onde vai a vida, tão mal gasta. Na total consciência nos retalha. O desejar, o querer, o não bastar, Enganada procura da razão Que o acaso de sermos justifique, Eis o que dói, talvez no coração. José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

Eu e ela

Cobertos de folhagem, na verdura, O teu braço ao redor do meu pescoço, O teu fato sem ter um só destroço, O meu braço apertando-te a cintura; Num mimoso jardim, ó pomba mansa, Sobre um banco de mármore assentados. Na sombra dos arbustos, que abraçados, Beijarão meigamente a tua trança. Nós havemos de estar ambos unidos, Sem gozos sensuais, sem más idéias, Esquecendo para sempre as nossas ceias, E a loucura dos vinhos atrevidos. Nós teremos então sobre os joelhos Um livro que nos diga muitas cousas Dos mistérios que estão para além das lousas, Onde havemos de entrar antes de velhos. Outras vezes buscando distração, Leremos bons romances galhofeiros, Gozaremos assim dias inteiro, Formando unicamente um coração. Beatos ou apagãos, via à paxá, Nós leremos, aceita este meu voto, O Flos-Sanctorum místico e devoto E o laxo Cavaleiro de Faublas... Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

Crepuscular

Há no ambiente um murmúrio de queixume, De desejos de amor, d'ais comprimidos... Uma ternura esparsa de balidos, Sente-se esmorecer como um perfume. As madressilvas murcham nos silvados E o aroma que exalam pelo espaço, Tem delíquios de gozo e de cansaço, Nervosos, femininos, delicados,  Sentem-se espasmos, agonias d'ave, Inapreensíveis, mínimas, serenas... _ Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas, O meu olhar no teu olhar suave.  As tuas mãos tão brancas d'anemia... Os teus olhos tão meigos de tristeza... É este enlanguescer da natureza, Este vago sofrer do fim do dia. Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras g...

Caminharemos de olhos deslumbrados

Caminharemos de olhos deslumbrados E braços estendidos E nos lábios incertos levaremos O gosto a sol e a sangue dos sentidos. Onde estivermos, há-de estar o vento Cortado de perfumes e gemidos. Onde vivermos, há-de ser o templo Dos nossos jovens dentes devorando Os frutos proibidos. No ritual do verão descobriremos O segredo dos deuses interditos E marcados na testa exaltaremos Estátuas de heróis castrados e malditos. Ó deus do sangue! deus de misericórdia! Ó deus das virgens loucas Dos amantes com cio, Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas, Unge os nossos cabelos com o teu desvario! Desce-nos sobre o corpo como um falus irado, Fustiga-nos os membros como um látego doido, Numa chuva de fogo torna-nos sagrados, Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro. Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos, Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas, Atapeta de flores a estrada que seguimos E carrega de aromas a brisa que nos toca. Nus e ensanguenta...

À luz da lua

Iamos sós pela floresta amiga, Onde em perfumes o luar se evola, Olhando os céus, modesta rapariga! Como as crianças ao sair da escola. Em teus olhos dormentes de fadiga, Meio cerrados como o olhar da rola, Eu ia lendo essa ballada antiga D'uns noivos mortos ao cingir da estola... A Lua-a-Branca, que é tua avozinha, Cobria com os seus os teus cabellos E dava-te um aspeto de velhinha! Que linda eras, o luar que o diga! E eu compondo estes versos, tu a lel-os, E ambos scismando na floresta amiga... António Nobre, in 'Só'

Amo-te muito, meu amor, e tanto

Amo-te muito, meu amor, e tanto que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda depois de ter-te, meu amor. Não finda com o próprio amor o amor do teu encanto. Que encanto é o teu? Se continua enquanto sofro a traição dos que, viscosos, prendem, por uma paz da guerra a que se vendem, a pura liberdade do meu canto, um cântico da terra e do seu povo, nesta invenção da humanidade inteira que a cada instante há que inventar de novo, tão quase é coisa ou sucessão que passa... Que encanto é o teu? Deitado à tua beira, sei que se rasga, eterno, o véu da Graça. Jorge de Sena, in “Poesia, Vol. I”

Cai a chuva no portal

Cai a chuva no portal, está caindo Entre nós e o mundo, essa cortina Não a corras, não a rasgues, está caindo Fina chuva no portal da nossa vida. Gotas caem separando-nos do mundo Para vivermos em paz a nossa vida. Cai a chuva no portal, está caindo Entre nós e o mundo, essa toalha Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo Chuva fina no portal da nossa casa. Por um dia todos longe e nós dormindo Lado a lado, como páginas dum livro. Lídia Jorge, (Inédito)

Se tu viesses ver-me

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços... Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca... o eco dos teus passos... O teu riso de fonte... os teus abraços... Os teus beijos... a tua mão na minha... Se tu viesses quando, linda e louca, Traça as linhas dulcíssimas dum beijo E é de seda vermelha e canta e ri E é como um cravo ao sol a minha boca... Quando os olhos se me cerram de desejo... E os meus braços se estendem para ti... Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

Apoteose

Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro Dormindo fôgo, incerto, longemente... Tudo se me igualou num sonho rente, E em metade de mim hoje só móro... São tristezas de bronze as que inda choro - Pilastras mortas, marmores ao Poente... Lagearam-se-me as ânsias brancamente Por claustros falsos onde nunca óro... Desci de mim. Dobrei o manto d'Astro, Quebrei a taça de cristal e espanto, Talhei em sombra o Oiro do meu rastro... Findei... Horas-platina... Olor-brocado... Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquideas pranto... - Ó pantanos de Mim - jardim estagnado... Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco. O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino, O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... A que distância!... (Nem o acho... ) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram trem...

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam Como se tivessem boca. Palavras de amor, de esperança, De imenso amor, de esperança louca. Palavras nuas que beijas Quando a noite perde o rosto; Palavras que se recusam Aos muros do teu desgosto. De repente coloridas Entre palavras sem cor, Esperadas inesperadas Como a poesia ou o amor. (O nome de quem se ama Letra a letra revelado No mármore distraído No papel abandonado) Palavras que nos transportam Aonde a noite é mais forte, Ao silêncio dos amantes Abraçados contra a morte. Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'