Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2016

Se tu viesses ver-me

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços... Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca... o eco dos teus passos... O teu riso de fonte... os teus abraços... Os teus beijos... a tua mão na minha... Se tu viesses quando, linda e louca, Traça as linhas dulcíssimas dum beijo E é de seda vermelha e canta e ri E é como um cravo ao sol a minha boca... Quando os olhos se me cerram de desejo... E os meus braços se estendem para ti... Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

Apoteose

Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro Dormindo fôgo, incerto, longemente... Tudo se me igualou num sonho rente, E em metade de mim hoje só móro... São tristezas de bronze as que inda choro - Pilastras mortas, marmores ao Poente... Lagearam-se-me as ânsias brancamente Por claustros falsos onde nunca óro... Desci de mim. Dobrei o manto d'Astro, Quebrei a taça de cristal e espanto, Talhei em sombra o Oiro do meu rastro... Findei... Horas-platina... Olor-brocado... Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquideas pranto... - Ó pantanos de Mim - jardim estagnado... Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'